"Perdoei meu pai quando percebi que ele não precisa ser perfeito para me amar"

INSPIRAÇÃO

"Perdoei meu pai quando percebi que ele não precisa ser perfeito para me amar"

Date August 7, 2017 19:58

Quando meu pai saiu de casa eu tinha 11 anos. Vê-lo me dar um beijo e sair com as malas pela porta enquanto minha mãe chorava em um canto da sala foi um choque. Agora, quando me lembro dos fatos que antecederam sua partida, entendo que aquelas brigas, o silêncio na mesa de jantar, as ausências injustificadas, tudo já era um claro sinal do fim... mas eu era apenas uma criança, como saberia?

O que eu soube naquela época é que meu pai tinha se apaixonado por outra pessoa e que achava que seria mais feliz com ela e que, talvez, nós também ficaríamos melhor sem ele. Como ele pôde pensar isso? Em que mundo eu seria mais feliz sem meu pai, meu ídolo, meu herói por perto?

Minha mãe, que cantava e dançava pela casa, passou meses praticamente sem sair do seu quarto. Minha avó foi morar com a gente e a minha sensação era que eu havia perdido meu pai e minha mãe.

Foram meses de completa reviravolta, de perder o chão, ficar sem rumo, de ter toda a minha vidinha de menina virada de ponta cabeça. Mas o tempo se encarregou de colocar as coisas em seu lugar. Aos poucos, minha mãe retomou a rotina, voltou ao trabalho e até cantava de vez em quando. Meu pai desapareceu por 7 anos.

Ele só voltou na minha adolescência, dizendo que queria recuperar o tempo perdido. Contou que não sabia o que fazer, que também foi difícil pra ele, que ficou perdido. Nesses 7 anos, ele construiu outra família e tinha uma filhinha pequena. Fiquei com raiva, com ciúme, o culpei por todas as minhas frustrações. Pela minha formatura que ele não foi, pela ajuda que ele não me deu quando tinha que escolher o vestibular que ia prestar, quando me apaixonei e não sabia como lidar. Mandei ele embora e pedi, por favor, para ele não voltar nunca mais.

Depois disso, fiquei sem ver meu pai por mais 4 anos... mas todos os dias ele me mandava um e-mail. Falando sobre o seu primeiro amor, sobre trabalho, sobre amizade, universidade, viagens. Todas as conversas que não tivemos aconteceram virtualmente, ainda que tenha sido apenas um monólogo. Eu nunca respondi nenhum e-mail e, mesmo assim, ele não passou um dia sem me escrever.

Aos 23 anos, decidi me casar. Marquei a data e fiquei pensando em como gostaria que meu pai me levasse ao altar. Mas meu orgulho me impedia de dizer qualquer coisa. Ele ficou sabendo e me escreveu:

"Te desejo amor. Que nunca falte amor para recomeçar e perdoar".

E eu entendi tudo. Estava prestes a começar uma vida a dois e meu pai conseguiu me dar uma lição valiosa. Os relacionamentos podem não ser perfeitos, mas se tiver amor vai dar tudo certo. É preciso ter fé no que o outro tem de melhor e perdoar.

Perdoei meu pai quando percebi que ele não precisa ser perfeito para me amar.

Escrevi para o meu pai dizendo que queria que ele me levasse ao altar. E foi o dia mais feliz da minha vida.